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Orelhão, bikes e Fuscas: cenografia brasiliense brilha em 'O Agente Secreto', indicado ao Oscar 2026

‘O Agente Secreto’ é indicado para o Oscar de Melhor Filme Indicado em quatro categorias do Oscar 2026, o filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Fil...

Orelhão, bikes e Fuscas: cenografia brasiliense brilha em 'O Agente Secreto', indicado ao Oscar 2026
Orelhão, bikes e Fuscas: cenografia brasiliense brilha em 'O Agente Secreto', indicado ao Oscar 2026 (Foto: Reprodução)

‘O Agente Secreto’ é indicado para o Oscar de Melhor Filme Indicado em quatro categorias do Oscar 2026, o filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, vai levar para a premiação cenas inteiras gravadas na área central de Brasília – colocando novamente a capital no mapa das grande produções internacionais. Dois prédios do Setor Comercial Sul (SCS) foram usados como locação do longa, que igualou o recorde brasileiro de "Cidade de Deus" nesta quinta-feira (22) ao entrar na disputa de quatro Oscar: melhor seleção de elenco; melhor filme internacional; melhor ator (Wagner Moura); melhor filme. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 DF no WhatsApp. A produção, já premiada no Festival de Cannes, no Globo de Ouro e em diversas outras listas, foi rodada principalmente no Recife. Além das cenas em Brasília, há também momentos gravados em São Paulo. A presença de Brasília no longa vai além do simples cenário. A diretora de arte brasiliense Didi Colado foi responsável por montar a equipe local e produzir elementos usados nas sequências gravadas na capital. 'O Agente Secreto' usou prédios modernistas no centro de Brasília para ambientar cenas; veja Atuando desde 2015 na área, ela foi indicada pela produtora executiva Larissa Rolim para compor a etapa brasiliense de captação. Segundo Didi, o convite envolvia a criação e adaptação de objetos específicos para três cenas da produção. Para isso, ela chamou o contrarregra Mika Martins, que a acompanhou na transformação visual do orelhão usado no longa e na montagem do cenário que compõe as sequências gravadas no Setor Comercial Sul. LEIA TAMBÉM: 'O agente secreto' recebe quatro indicações ao Oscar e empata recorde de 'Cidade de Deus' Kleber Mendonça Filho agradece 'energia incrível' após 'O Agente Secreto' ser indicado ao Oscar 2026 Construção da cena em Brasília 'Tudo foi produzido a partir de reuniões de briefing com o diretor de arte, Thales Junqueira, e com aprovação do Kleber', afirma Didi Didi Colado/Arquivo Pessoal A escolha e negociação da locação ficaram a cargo da produtora executiva Larissa Rolim, que apresentou o local ao diretor Kleber Mendonça Filho. Ele visitou Brasília antes da gravação para aprovar o cenário pessoalmente. Durante o set, Didi permaneceu ao lado do diretor para ajustar detalhes estéticos em tempo real. Tudo, produzido a partir de reuniões de briefing com o diretor de arte Thales Junqueira e aprovado por Kleber. A diretora de arte afirma que a equipe de filmagem do longa parecia se sentir acolhida durante as gravações na capital federal. “Foi a primeira vez que o Kleber gravou em Brasília, e senti que estavam felizes de estarem aqui. Não tivemos nenhum imprevisto nessa diária. Como eram poucas cenas para o tempo disponível, houve margem para refazer planos sempre que o diretor desejava aprimorar o resultado", destaca. O orelhão que virou símbolo Referências e significado visual: a referência do design do orelhão foi uma imagem enviada pela produção de Recife Didi Colorado/Arquivo Pessoal O telefone público aparece em um momento central da narrativa. De acordo com Didi, a ideia do objeto já estava prevista no roteiro e havia sido previamente concebida por Thales Junqueira. A equipe enviou a ela um frame de uma cena gravada em Recife como referência estética e temporal — situada entre 1977 e 1978, no auge da ditadura militar. A estrutura utilizada não foi construída do zero. "O orelhão já existia. Ele fica no meu acervo de objetos, o ArteColado, no Núcleo Bandeirante”, explica. A partir da base, a diretora pintou, envelheceu e criou toda a parte interna necessária para acomodar o telefone vermelho de época, peça concebida exclusivamente para a filmagem. “No roteiro, o advogado nterpretado por Marcelo Valle coloca fichas no telefone para fazer a ligação para o personagem do Wagner Moura. Então, criamos também um porta‑fichas”, conta. Além do orelhão, Didi e Mika produziram outros itens cenográficos, como uma bicicleta vermelha, canivetes, cartas, cigarros e placas. O trabalho levou cerca de uma semana. Parte dos objetos veio do próprio acervo da diretora, e outra parte foi fornecida pela equipe de Recife para manter a continuidade visual das cenas. Referências e significado visual Sobre o design do orelhão, Didi diz que a referência principal foi a imagem enviada pela produção de Recife. O objeto não replica fielmente um modelo de Brasília da época, mas isso não foi um problema. “Existe uma licença poética nessa cor amarelo desbotado e no telefone vermelho. São contrastes visualmente atrativos", conta a profissional. Segundo ela, a intenção era compor um elemento que dialogasse tanto com o clima da cena quanto com a estética modernista dos prédios do Setor Comercial Sul (SCS), onde as janelas coloridas e as linhas geométricas criam forte identidade visual. Didi assistiu ao filme pela primeira vez na abertura do 60° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Cine Brasília, e descreve o momento como emocionante. “Foi incrível subir naquele palco com parte da equipe e elenco de Recife. Não é à toa que o filme já chegou onde chegou — e acredito que pode ir ainda mais longe. Consumam o cinema brasileiro, olhem para o que é produzido aqui. Brasília tem conquistado espaços dentro do audiovisual”, afirma. Para a diretora de arte, participar de “O Agente Secreto” foi um marco. Ela destaca a importância do filme para a memória nacional. “Esse filme representa nossa história e nossa memória. Que ela nunca seja esquecida e que essas atrocidades nunca mais se repitam no país. Kleber vai além do talento para o audiovisual. Foi muito gratificante estar no set com alguém que respeita e valoriza cada departamento e cada pessoa que está ali para realizar o que ele imaginou", finaliza. Para a diretora de arte, participar de “O Agente Secreto” foi um marco. Didi Colado/Arquivo Pessoal Arquitetura modernista Além da facilidade logística, os prédios escolhidos para a locação se destacam pela relevância arquitetônica. Segundo o coordenador da Câmara Temática de Patrimônio do CAU/DF, o conselheiro Cláudio Silva, os edifícios Morro Vermelho e Camargo Corrêa, no Setor Comercial Sul (SCS), são marcos da arquitetura moderna brasiliense. Os prédios têm 16 andares cada, três subsolos, 557 vagas de garagem no total e contam com escritórios de arquitetura e design, empresas e bancos. Brasília é cenário de trechos do filme “O Agente Secreto”, premiado no Globo de Ouro Cláudio destaca que o conjunto arquitetônico tem valor urbanístico: as torres foram implantadas com foco no pedestre, contam com praça entre os blocos e separam a circulação de veículos (no subsolo) da circulação de pedestres (no térreo). Além disso, utilizam sistemas pré-fabricados e soluções de climatização adequadas ao clima seco da capital. Em 2022, ambos os prédios receberam um selo do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do DF pelo alto nível de conservação e qualidade arquitetônica. “O conjunto mostra que é possível atualizar usos e tecnologias sem descaracterizar o projeto original, reforçando o valor do patrimônio arquitetônico da capital”, afirma o conselheiro. De tão conservados, nem foi preciso corrigir ou manipular a imagem para devolver o público ao período da trama. Nas imagens, é possível ver que apenas os carros foram substituídos pela frota da época – um trabalho que reuniu 169 veículos antigos nas três cidades em que o longa foi rodado. Compare: Comparação entre a foto divulgada das filmagens e a foto atual dos prédios em Brasília Reprodução/g1 e Redes Sociais Morro Vermelho e Camargo Corrêa Os edifícios Morro Vermelho e Camargo Corrêa foram projetados em 1974 pelo arquiteto João Filgueiras Lima. Conhecido como Lelé, sua arquitetura é reconhecida por unir tecnologia, industrialização, funcionalidade e forte compromisso social. Os projetos mesclam estrutura de concreto — vigas, pilares e torre de circulação vertical— com elementos pré-fabricados de lajes. As persianas dos prédios, em cores laranja e azul, além de regular a temperatura interna, destacam o centro comercial de Brasília. João Filgueiras Lima também projetou o Memorial Darcy Ribeiro, o Hospital Regional de Taguatinga e o Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek. Ele faleceu em 2014 aos 82 anos, em Salvador. "O agente secreto" ganha Globo de Ouro de melhor filme de língua não-inglesa e melhor ator para Wagner Moura 'Obrigado, Brasília' Em setembro, o diretor Kleber Mendonça Filho publicou nas redes sociais um agradecimento afetuoso à capital federal. "Em dezembro do ano passado, filmamos em Brasília um pouco de O AGENTE SECRETO. Obrigado, Brasília, hoje devolvemos a acolhida com o filme pronto." 'O Agente Secreto': conheça o Cinema São Luiz, destaque no filme vencedor do Globo de Ouro 200 figurantes e 169 veículos antigos: veja curiosidades do longa Publicação de Kleber Mendonça Filho sobre Brasília Redes Sociais/Reprodução Em entrevista à TV Globo, Kleber Mendonça Filho destacou o impacto de abrir o 60º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em setembro. "A ideia de abrir o 60 Festival de Brasília pra mim é muito forte. Em primeiro lugar, o projeto de Niemeyer, o Cine Brasília é uma das salas mais espetaculares do mundo, não só do Brasil. E o Festival de Brasília é uma história constante do cinema brasileiro. Então fico muito feliz de colaborar com um pouco dessa história." A atriz Fernanda Maria Candido, que vive Elza no longo, afirmou que o cinema brasileiro vive um momento especial. "A nossa produção está em um período muito fértil, ela tá conseguindo concretizar todo potencial que ela tem", enfatiza. Já Alice Carvalho, atriz que dá vida a Fátima (esposa do personagem de Wagner Moura), afirmou que a equipe estava apreensiva para a estreia do longa, especialmente no Festival de Brasília. "Jogar em casa é mais gostoso. Tá todo mundo um pouco apreensivo, principalmente em um festival como esse, um dos principais festivais do nosso país, mas é só alegria! O filme em si é uma declaração de amor ao cinema e a esse país. Uma memoria de coisas que aconteceram nesse país", contou. 'O Agente Secreto' faz estreia nacional no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro LEIA TAMBÉM: Globo de Ouro: 'O Agente Secreto' faz história ao vencer em duas categorias Elenco de 'O Agente Secreto' fala sobre expectativa para o Oscar após conquistas no Globo de Ouro Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.